Reescrever a História é coisa tão antiga quanto a própria História.
Os
Anais de Tácito, por exemplo (xv 38), mencionam um boato de que Nero ateou
fogo a Roma; tal "boato" foi mais tarde repetido pelos historiadores romanos como
sendo um fato (Suetônio, Nero, 38: Dio Cassius, Epistolae, lxii 16;
Plínio, Naturalis Historia, xvii 5).
Escritores posteriores submeteram
esse "fato" a exame e reduziram tal "fato" à categoria de mero boato.
Em
1946 era "fato provado" que os nazistas haviam feito sabão de seres humanos (Julgamento,
Tribunal de Nuremberg, IMT I 252 <<283>>; VII 597-600 <<656-659>>; XIX 506 <<566-567>>;
XXII 496 <<564>>).
Esse "fato", desde então, ao que parece, tornou-se mero
"boato" (Hilberg, "revisão definitiva", Destruição dos Judeus Europeus, Holmes
e Mayer, NY, pg. 966: "Até o dia de hoje a origem do boato de fabrição de sabão
humano não foi confirmada").
O "boato" juridicamente sem provas e de origem
soviética (Mostra USSR 393) (uma garrafa de sabão, um jarro que cheira mal) se encontra
no Palácio da Paz de Haia. Os funcionários desse Palácio da Paz o mostram a visitantes
atentos e lhes dizem que é autêntico mas, ao que parece, não respondem cartas mandadas
por pessoas que pedem que o sabão seja posto à prova.
Em 1943 corria o "boato"
de que os nazistas estavam matando os judeus com vapor, fritura, escaldamento, eletrocução,
vácuo e gás; (como exemplo, The Black Book: The Nazi Crime Against the Jewish
People, pp. 270, 274, 280, 313, apresentados como "provas" à comissão de Nuremberg).
Em 1946 os "gaseamentos" haviam-se tornado "fatos", enquanto as vaporizações,
frituras, escaldamentos, eletrocuções, aspiradorizações, continuavam a ser mero
"boato". (Nota: as "vaporizações" foram "provadas" no Julgamento de Pohl, Quarto
Julgamento de Nuremberg, NMT IV, 1119-1152).
A "prova" de que os nazistas
"gaseavam" judeus não se mostra melhor, em qualidade, do que a "prova" de que eles
vaporizavam, fritavam, escaldavam, eletrocutavam ou aspiradorizavam; parece legítimo
chamar tal "prova" ao banco dos réus.
Este livro contém o que não é uma história
reescrita, porém simples guia de material histórico que foi esquecido. Os 312.022
depoimentos juramentados e autenticados pela lei, apresentados pela defesa no Primeiro
Julgamento de Nuremberg, se viram esquecidos, enquanto os 8 ou 9 depoimentos juramentados
apresentados pela acusação, a promotoria, e que os "desmentiam", são lembrados (XXI
437 <<483>>).
Este livro contém grande número de referências aos números
das páginas. Os mesmos não se destinam a confundir, impressionar ou intimidar o
leitor, nem a comprovar a veracidade da matéria por eles declarada e sim a ajudar
as pessoas interessadas em pesquisar por conta própria à busca da verdade dos fatos,
descobrir a realidade dos mesmos, verificar o que verdadeiramente ocorreu.
Se as declarações apresentadas pela defesa são documentos mais idôneos do que
os apresentados pela acusação e referentes a sabão humano (Documento 397), meias
de calçar em cabelo humano (Documento USSR-511), hamburgers em carne humana (Mostra
1873, Julgamento de Tóquio), etc., caberá ao leitor decidir.
N.B.:
IMT = International Military Tribunal (Julgamento Internacional de Nuremberg
em 4 linguas)
NMT = National Military Tribunal (julgamentos americanos
de Nuremberg em inglês>
Ante a falta de mais indicoes ao contrario, toda
paginação refere-se à edição americana do IMT.
<< >> = paginação almã do
IMT.
MARTIN BORMANN
Bormann foi acusado de "perseguir a
religião", e de muitos outros crimes. O defensor de Bormann, o Dr. Bergold, fez
ver que muitos países modernos (referia-se à União Soviética) são declaradamente
ateus e que ordens proibindo sacerdotes de ocupar altos cargos partidários (isto
é, cargos no Partido Nazista) não podiam ser chamadas de "perseguição". Nas palavras
do Dr. Bergold:
"O Partido é descrito como criminoso, como conspiração. Será
crime excluir determinadas pessoas da participação em uma conspiração criminosa?
Isso é considerado crime?" (V 312 <<353>>).
Foram apresentados documentos
nos quais Bormann proibia a perseguição à religião e permitia expressamente que
a religião fosse ensinada (XXI 462-465 <<512-515>>). Uma das condições dessa ordem
era a de que todo o texto bíblico tinha de ser usado; partes apagadas, distorções
ou manipulações do texto eram proibidas. As igrejas receberam subsídios do governo
até o final da guerra. Devido à escassez de papel durante a guerra foram impostas
restrições à impressão de todos os jornais, não apenas os religiosos (XIX 111-124
<<125-139>>; XXI 262-263; 346; 534; 539; <<292-293; 383; 589; 595>>; XXII 40-41
<<52-53>>).
O defensor de Bormann não teve grandes problemas para demonstrar
que Bormann não podia ser condenado por crime sob as leis de país algum, já que
se torna claro que os estenógrafos não são criminalmente responsabilizáveis por
todos os documentos que assinem. Não ficou claro em que medida Bormann agiu meramente
como estenógrafo ou secretário. Para a acusação, no entanto, a lei não vinha ao
caso e Bormann foi sentenciado à forca. A sentença deveria ser levada a efeito imediatamente,
deixando de lado extenso testemunho de que ele fora morto pela explosão de um tanque
e provavelmente não se encontraria em um só pedaço, o que apresentava certos problemas
de natureza prática (XVII 261-271 <<287-297>>) na execução da sentença.
"ORGANIZACOES CRIMINOSAS"
As provas da defesa quanto às "organizações
criminosas" consistem no depoimento de 102 testemunhas e 312.022 declarações juramentadas
(XXII 176 <<200>>).
A expressão "criminosas" jamais foi definida nesse julgamento
(XXII 310 <<354>>; e também XXII 129-135 <<148-155>>).
Tampouco ficou definido
quando tais organizações se tornaram "criminosas" (XXII 240 <<272-273>>). O próprio
Partido Nazista foi declarado "criminoso" a partir de 1920 (XXII 251 <<285>>) ou
então, talvez, apenas em 1938 (XXII 113 <<130>>) ou, ainda, não fosse criminoso,
em absoluto (II 105 <<123>>).
As declarações juramentadas, em número de 312.022,
foram apresentadas a uma "comissão" e as provas apresentadas a essa "comissão" não
surgem nos anais do Julgamento de Nuremberg. Os Arquivos Nacionais de Washington,
USA, não possuem cópia dos autos da comissão, jamais ouviram falar neles e não sabem
do que se trata. Das 312.022 declarações juramentadas, apenas algumas dúzias foram
traduzidas ao inglês, de modo que o tribunal não as pôde ler (XXI 287, 397-398 <<319,
439>>).
O presidente do tribunal, Sir Geoffrey Lawrence, não entendia alemão;
tampouco Robert Jackson, acusador nesse "julgamento", conhecia esse idioma.
Devido a alteração de último momento, que foi efetuada (XXI 437-438, 441, 586-587
<<483-485, 488, 645-646>>), muitas outras declarações foram recusadas, em bases
legais (XX 446-448 <<487-489>>).
A "comissão" preparou "resumos" que foram
apresentados ao tribunal (milhares de depoimentos afirmando o tratamento humano
proporcionado aos prisioneiros, etc). Tais resumos não foram levados em conta como
prova. O tribunal prometeu ler os 312.022 testemunhos antes de formar seu veredito
(XXI 175 <<198>>); quatorze dias depois foi anunciado que os 312.022 testemunhos
não eram verdadeiros (XXII 176-178 <<200-203>>).
Em seguida um depoimento
isolado, apresentado pela acusação, Documento D-973, foi tido como tendo "rebatido"
136.000 declarações juramentadas, apresentadas pela defesa (XXI 588; 437, 366 <<647,
483-484, 404>>).
As 102 testemunhas foram forçadas a aparecer e depor ante
a "comissão" antes de se apresentarem ao tribunal. Em seguida, 29 dessas testemunhas
(XXI 586 <<645>>), ou 22 delas (XXII 413 <<468>>) puderam se apresentar ao tribunal
porém seu depoimento não teve permissão para ser "cumulativo", ou seja, não puderam
repetir seu depoimento perante a "comissão" (XXI 298, 318, 361 <<331, 352, 398-399>>).
Em seguida, seis declarações juramentadas apresentadas pela acusação foram tidas
como havendo "desmentido" o depoimento das 102 testemunhas (XXI 153 <<175>>, XXII
221 <<251>>).
Uma dessas declarações juramentadas estava redigida em polonês,
de modo que a defesa não a pôde ler (XX 408 <<446>>). Outra era de judeu chamado
Szloma Gol, afirmando ele ter desenterrado e cremado 80.000 corpos, entre esses
o de seu próprio irmão (XXI 157 <<179>>, XXII 220 <<250>>). (Nos anais britânicos
ele somente inumou 67.000 cadáveres.)
A acusação já encerrara sua apresentação
quando isso ocorreu (XX 389-393, 464 <<426-430, 506>>; XXI 586-592 <<645-651>>).
Em seguida a acusação declarou em sua carga final que 300.000 declarações juramentadas
tinham sido apresentadas ao tribunal e haviam sido examinadas durante o julgamento,
dando a impressão de que se tratava de documentos dela, da acusação (XXII 239 <<272>>).
Na verdade a acusação atravessou todo o julgamento sem mais do que algumas declarações
realmente importantes e dela própria. Vejamos, por exemplo, XXI 437 <<483>>, onde
oito ou nove declarações foram apresentadas pela acusação contra 300.000 pela defesa;
ver também XXI 200 <<225>>; 477-478 <<528-529>>; 585-586 <<643-645>>; 615 <<686-687>>).
Nos diversos julgamentos sobre os campos de concentração, como os julgamentos
de Martin Gottfried Weiss, usou-se expediente mais simples: o mero emprego no campo,
ainda que por apenas algumas semanas, foi tido como constituindo "conhecimento construtivo
do Plano Comum". Esse "Plano Comum", naturalmente, não ficou definido. Não era necessário
alegar atos específicos de mau trato ou mostrar que pessoa alguma houvesse morrido
como resultado desse mau trato. 36 dos 40 acusados foram condenados à morte.
Os Anais da Comissão de Nuremberg se acham em Haia e preenchem metade de um
depósito à prova de fogo e que vai do piso ao teto. O depoimento de cada testemunha
foi datilografado com a numeração iniciando-se à página 1, depois redatilografado,
com paginação consecutiva alcançando muitos milhares de páginas. Os primeiros rascunhos
e a cópia final se acham em pastas, juntos, grampeados, em papel muito quebradiço,
com grampos enferrujados. E absolutamente fora de dúvida que, a não ser em Haia,
alguém tenha jamais lido esse material.
O resumo relacionado ao depoimento
das 102 testemunhas aparece em sua maior parte em letra pequena, volumes XXI e XXII,
nos Anais do Julgamento de Nuremberg. O tipo pequeno significa que trechos foram
apagados no resumo final da defesa (de outra maneira o julgamento se teria estendido
por tempo demais).
Esse material preenche centenas de páginas. Nos Anais
publicados no Reino Unido cada palavra desse material desapareceu. Em inglês, 11
páginas em tipo pequeno estão faltando entre os parágrafos 1 e 2 e à página 594
do Volume XXI. Os mesmos aparecem nos volumes em alemão (XXI 654, 664). A maior
parte do resto parece encontrar-se lá.
Esse material cobre, por exemplo:
Guerra Total XIX 25 <<32>> Reparações XIX 224-232 <<249-259>> Sindicatos
alemães XXI 462 <<512>> Gestapo e campos de concentração XXI 494-530 <<546-584>>
Putsch de Röhm XXI 576-592 <<635-651>> Noite de cristal XXI 590-592 <<649-651>>
Recolocação XXI 467-469, 599-603 <<517-519, 669-674>> S.D. XXII 19-35 <<27-47>>
Armamentos XXII 62-64 <<75-78>>
Os 312.022 depoimentos provavelmente se encontram
depositados em um arquivo alemão. O Julgamento do Tribunal de Nuremberg é impresso
duas vezes, nos volumes I e XXII. Mostra-se importante obter os volumes em alemão
e ler os julgamentos no volume XXII, em alemão. Alemão fraco, erros de tradução,
etc, cometidos pelos americanos, foram corrigidos com notas ao pé de página. Erros
desse tipo, em documentos, podem ser tomados como falsificações.
De um modo
geral os volumes IMT em alemão são preferíveis aos americanos. Pés de página freqüentes,
por todos esses volumes em alemão, alertam o leitor quanto a erros de tradução,
documentos que desapareceram e cópias falsificadas (por exemplo, XX 205 do processo
verbal alemão: "Esta frase não está presente no documento original").
Os
volumes em alemão em livros de bolso são obteníveis em brochura na Delphin Verlag,
Munique (ISBN 3.7735.2509.5). (Apenas os Anais; anais e volumes de documentos em
inglês são obteníveis na Oceana Publications, Dobbs Ferry, NY, em microfilmes).
DOCUMENTOS
A versão padronizada dos acontecimentos é a de que
os Aliados examinaram 100.000 documentos e escolheram 1.000, que foram trazidos
como provas e que os documentos originais foram então depositados no Palácio da
Paz em Haia. Tal versão apresenta grande inexatidão.
Os documentos usados
como provas em Nuremberg consistiam em grande parte em "fotocópias" de "cópias".
Muitos desses documentos originais foram escritos de fora a fora em papel comum,
sem marcas manuscritas de qualquer tipo, por pessoas desconhecidas. De vez em quando
encontra-se inicial ou assinatura ilegível de uma pessoa mais ou menos desconhecida,
declarando o documento como "cópia verdadeira". As vezes encontram-se carimbos alemães,
de outras não. Muitos desses documentos foram "encontrados" pelos russos, ou "selecionados"
por Comissões Soviéticas de Crimes de Guerra.
O volume XXXIII, volume de
documentos apresentados que peguei e examinei ao acaso, contém 20 interrogatórios
ou declarações juramentadas, 12 fotocópias, 5 cópias sem assinaturas, 5 documentos
originais com assinaturas, 4 cópias de material impresso, 3 cópias mimeografadas,
3 teletipos, 1 cópia de microfilme, 1 cópia assinada por outra pessoa e 1 sem especificação
Haia tem poucos documentos originais do tempo de guerra, se tiver algum. Também
ali se encontram muitas "declarações juradas" originais e pós-guerra, ou declarações
juramentadas, os anais da Comissão do Tribunal e muito material valioso da defesa.
Tem também o "sabão humano" que jamais foi posto à prova e a "receita original de
sabão humano" (Documento USSR-196) que é uma falsificação; mas, ao que parece, nenhum
documento original alemão do tempo de guerra. Haia tem fotostáticas negativas de
tais documentos em papel extremamente quebradiço e que foi grampeado. Para fotocopiar
as fotostáticas os grampos são retirados e quando regrampeados, outros furos são
feitos no papel. A maioria desses documentos não foi fotocopiada com freqüência
e os funcionários em Haia dizem que é muito incomum alguém pedir para vê-los.
Os Arquivos Nacionais em Washington (ver o livro de Telford Taylor, Uso de
Documentos Alemães e Correlatos, Capturados, Uma Conferência Nacional de Arquivos)
afirma que os documentos originais estão em Haia. Haia afirma que os documentos
originais se acham nos Arquivos Nacionais.
Os Stadtarchiv de Nuremberg e
o Bundesarchiv Koblenz também não possuem documentos originais e ambos dizem que
tais originais se encontram em Washington. Já que a maioria desses originais se
acha, na maior parte, em forma de "cópias", é freqüente não se ter provas de que
os documentos em questão tenham existido.
Robert Jackson (o juiz norte-americano
que chefiou o julgamento) iniciou seus trabalhos citando os seguintes documentos
forjados ou que não vinham ao caso: 1947-PS; 1721-PS, 1014-PS; 81-PS; 212-PS e muitos
outros (II 120-142 <<141-168>>).
O Documento 1947-PS é a cópia da "tradução"
de carta mandada pelo General Fritsch à Baronesa Schutzbar-Milchling. Mais tarde
a baronesa assinou uma declaracão juramentada declarando jamais ter recebido a carta
em questão (XXI 381 <<420-421>>).
A "carta" falsificada do General Fritsch
à Baronesa Schutzbar-Milchling foi reconhecida como tal durante o julgamento e não
se acha incluída entre os volumes de documentos, onde deveria aparecer em XXVIII
44. Jackson, todavia, não foi repreendido pelo tribunal (XXI 380 <<420>>).
Os americanos, entusiasmados, ao que parece forjaram quinze dessas "traduções",
após o que os documentos originais tiveram sumiço total (ver Taylor, Documentos
Capturados).
O Documento 1721-PS é falsificação na qual um homem da S.
A. faz relatório a si próprio sobre como está levando a cabo uma ordem que é citada
ipsis litteris no relatório. Marcas manuscritas às páginas 2 e 3 são falsificações
evidentes de marcas à página 1 (XXI 137-141 <<157-161>>; 195-198 <<219-224>>; 425
<<470>>; XXII 147-150 <<169-172>>. Ver também Testemunho A Comissão, Fuss,
25 de abril, e Lucke, 7 de maio de 1946). Os Arquivos Nacionais têm uma fotostática
positiva do Documento 1721-PS e Haia tem uma fotostática negativa. Tal "original"
é fotocópia (XXVII 485).
O Documento 1014-PS é um discurso de Hitler, falsificado,
escrito em papel comum por pessoa desconhecida. O documento apresenta o cabeçalho
"Segundo Discurso" embora seja sabido que Hitler proferiu apenas um discurso naquela
data. Existem quatro versões desse discurso, três delas falsificações: 1014-PS,
798-PS, L-3 e uma versão autêntica, Ra-27 (XVII 406-408 <<445-447>>; XVIII 390-402
<<426-439>>).
Essa terceira falsificação, o Documento L-3, ostenta carimbo
de laboratório do FBI e jamais foi aceito como prova (II 286 <<320-321>>), porém
250 cópias do mesmo foram distribuídas à imprensa como autênticas (II 286-293 <<320-328>>).
Tal documento é citado por A.J.P. Taylor à página 254 em sua obra As Origens
da Segunda Guerra Mundial (Fawcett Paperbacks, 2a edição, com Resposta aos Críticos,
dando sua fonte como a Política Exterior Alemã, série D vii, No. 192 ee 193).
O Documento L-3 é a fonte de muitas afirmações atribuídas a Hitler, de modo
especial "Quem hoje se lembra do destino dos armênios?" e "Nossos inimigos são pequeninos
vermes, eu os vi em Munique". Ali, esse "Hitler" se compara a Gengiscã e diz que
exterminará os poloneses, desferirá um pontapé na virilha de Chamberlain, diante
dos fotógrafos. O documento parece ter sido preparado na mesma máquina de escrever
que redigiu muitos outros documentos em Nuremberg, como as duas outras versões do
mesmo discurso. Essa máquina de escrever era provavelmente uma Martin, fabricada
pela Triumph-Adler Werke, Nuremberg.
O Documento 81-PS é "cópia autenticada"
de carta sem assinatura e em papel comum, preparada por pessoa desconhecida. Se
fosse autêntica teríamos o primeiro rascunho de carta jamais enviada. Referência
é invariavelmente feita a ela como tendo sido escrita por Rosenberg, o que ele negou
(XI 510-511 <<560-561>>). Falta assinatura ao documento, bem como iniciais, número
diário em branco (uma marca burocrática) e não foi encontrado em meio aos papéis
e documentos da pessoa a quem dirigido (XVII 612 <<664>>). O Documento 81-PS é fotocópia,
com número soviético (URSS 353, XXV 156-161).
O Documento 212-PS também foi
preparado por pessoa desconhecida, inteiramente em papel comum, sem qualquer marca
manuscrita ou data, endereço ou carimbo (III 540 <<602>>, XXV 302-306, ver também
as fotocópias de fotostáticas negativas em Haia).
Infelizmente se trata de
caso bem típico. O Documento 386-PS, o "Hossbach Protokoll", o suposto discurso
feito por Hitler em 5 de novembro de 1938, é fotocópia autenticada de cópia de microfilme
de "cópia autêntica" redatilografada, preparada por um americano, de "cópia autenticada",
redatilografada e preparada por um alemão, de anotações manuscritas, não autenticadas,
feitas por Hossbach, e referentes a discurso feito por Hitler, escrito de memória
por Hossbach cinco dias após tal discurso ter sido feito. Não se trata do pior dos
documentos mas de um dos melhores, porque nele sabemos quem fez uma das cópias.
O texto de 386-PS foi "redigido" (XLII 228-230).
Assim sendo o "julgamento
por documentos" funciona da seguinte maneira: A, pessoa desconhecida, ouve alegadas
afirmações verbais "feitas por B", e faz anotações ou prepara documento com base
nessas alegadas declarações verbais. O documento é então apresentado como prova
não contra A que fez a cópia mas contra B, C, D, E e uma série de outras pessoas
embora nada haja para ligá-las ao documento ou às alegadas afirmações verbais. Declara-se
de modo casual, como sendo fato, que "B disse" ou que "C fez" ou que "D e E sabiam".
Isso vai contrariamente às regras de comprovação de qualquer país civilizado. Tampouco
são os documentos identificados por testemunhas.
A falsificação de documentos
originais foi raramente usada em Nuremberg porque os documentos não foram trazidos
ao tribunal. O "documento original" - isto é, a "cópia"original e sem assinatura
- era mantida em cofre no Centro de Documentos (II 195 <<224>>, 256-258 <<289-292>>).
Em seguida, duas "fotocópias da "cópia" (V 21 <<29>>) ou 6 fotocópias (II 251-253
<<284-286>>) foram preparadas e levadas ao tribunal. Todas as outras cópias foram
redatilografadas em mimeógrafo usando estêncil (IX 504 <<558-559>>).
Nos
Anais a palavra "original" é usada no sentido de "fotocópia" (II 249-250 <<283-284>>;
XIII 200 <<223>>, 508 <<560>>, 519 <<573>>, XV 43 <<53>>, 169 <<189>> 171 <<191>>
327 <<359>>) a fim de distinguir as fotocópias das cópias mimeografadas (IV 245-246
<<273-274>>).
"Traduções" de todos os documentos achavam-se à disposição
no início do julgamento (II 159-160 <<187-189>>, 191 <<219-220>>, 195 <<224>>, 215
<<245>>, 249-250 <<282-283>>, 277 <<312>>, 415 <<458>>, 437 <<482-483>>), mas os
textos alemães não puderam ser examinados senão dois meses mais tarde. Tal foi imposto
não só às sessões preparatórias e denúncias oficiais do julgamento, etc mas A TODOS
OS DOCUMENTOS. A defesa não recebeu documento algum em alemão senão após 9 de janeiro
de 1946 (V 22-26 <<31-35>>). Talvez os originais não existissem!
Os documentos
que parecem ter sido preparados na mesma máquina de escrever incluem o Documento
3803-PS, carta de Kaltenbrunner ao Prefeito de Viena e carta de acompanhamento desse
mesmo Prefeito, enviando a carta de Kaltenbrunner ao tribunal (XI 345-348 <<381-385>>).
Essa carta de Kaltenbrunner contém um termo geográfico falso (XIV 416 <<458>>).
KARL DÖNITZ
Dönitz foi preso por "fazer guerra submarina ilegal"
contra os ingleses. Na lei internacional tudo é questão de reciprocidade e de acordos
internacionais, que só podem ser levados a efeito por meio da reciprocidade. Na
guerra a melhor defesa contra uma arma é o contraataque vigoroso com a mesma arma.
Os ingleses, devido a seu domínio dos mares, combateram em ambas as guerras por
meio do bloqueio e do sistema chamado Navicert. Os navios neutros eram detidos no
mar e obrigados a seguir para portos ingleses, onde eram examinados de acordo com
fórmulas complicadas; se um país neutro importava mais alimentos, adubos, lã, couro,
borracha, algodão, etc do que era julgado necessário para suas próprias necessidades
em 1915 (pelos critérios dos britânicos), acreditava-se que a diferença estava sendo
enviada para reembarque à Alemanha e toda a carga era confiscada por eles. Resultado:
o navio (e com ele toda a sua carga) era confiscado e vendido em leilão, o que também
constituía uma violação às cláusulas de todos os contratos de seguros marítimos
britânicos).
Em 1918-19 o bloqueio foi mantido durante oito meses após o
Armistício para forçar os alemães a assinar o Tratado de Versalhes. Centenas de
milhares de alemães morreram à fome após a guerra enquanto os diplomatas hesitavam,
o que constituía evidente violação das condições do armistício e de todo o Direito
Internacional e, pelo que Hitler afirmou, "a maior violação da palavra de todos
os tempos". O ponto de vista britânico parece ser de que o bloqueio em si foi legal
mas levado a cabo de maneira inteiramente ilegal; cf. 1911 Encyclopaedia Britannica,
"Neutrality"; 1922 Encyclopaedia Britannica, "Blockade", "Peace Conference".
Na guerra contra o Japão os norte-americanos afundavam "tudo aquilo que se movia,
desde o primeiro dia de guerra".
Os ingleses jamais ratificaram a Quinta
Convenção de Haia, de 18 de outubro de 1907 sobre os direitos dos neutros, mas consideraram
seus termos aplicáveis aos alemães e japoneses, a despeito de sua cláusula de participação
de todos, isto è, a convenção não se aplica se um não signatàrio participar no conflito.
Os países neutros, entre eles os Estados Unidos, se queixavam-se de que isso
violava sua neutralidade mas atendiam, mais uma vez violando sua própria neutralidade.
A nação que permite sua neutralidade ser violada pode ser tratada como beligerante,
determina a lei internacional.
Em 1939 os alemães tinham apenas 26 submarinos
capazes de navegar o Atlântico, um quinto do total do total de submarinos da França,
apenas. Ademais os sub-marinos alemães eram muito menores que os de outras nações.
O contra-bloqueio contra os ingleses sômente poderia ser feito avisando aos neutros
para não navegar em águas próximas às ilhas britânicas. Para os ingleses isso era
"crime".
Desses 26 submarinos alemães, muitos se achavam, nesta ou naquela
oportunidade, recebendo reparos, sem navegar, de modo que por alguns meses apenas
dois ou três deles podiam estar operando no mar. Mostra-se óbvio que os submarinos
não podem levar a efeito a busca e captura do mesmo modo como os navios de superfície.
O submarino, vindo à superfície, quase não tem defesas contra o menor canhão montado
em navio mercante, para não falar em rádio, radar e aeronaves inimigas.
Foi
imposto pelos ingleses, em Nuremberg, que os submarinos alemães deviam ter vindo
à superfície, notificado ao navio sua intenção de busca; esperar que o navio iniciasse
hostilidades e depois afundar esse navio, presumivelmente com os canhões de convés
do submarino; após o que, recolhessem as dezenas ou centenas de sobreviventes a
bordo do submarino (onde eles estariam em perigo muito maior que em qualquer escaler
salva-vidas) e levá-los à terra mais próxima.
Quando aviões ingleses apareciam
e afundavam o submarino, matando os sobreviventes, estes haviam, está mais do que
claro, sido "assassinados" pelos alemães. Nenhuma convenção internacional requer
isso e nenhuma nação lutou desse modo. Já que salvar os sobreviventes tornava os
submarinos incapazes de agir e com freqüência resultava na perda desse submarino
e de sua tripulacão, Dönitz proibiu qualquer ato de salvamento. Isso foi considerado
equivalente à uma ordem de "exterminar os sobreviventes". No entanto, durante o
julgamento tal afirmação não recebeu validade.
Dönitz foi também acusado
de incentivar o povo alemão a uma resistência inútil, crime igualmente cometido
por Winston Churchill. Dönitz respondeu:
"Foi muito penoso que nossas cidades
ainda estivessem sendo bombardeadas e reduzidas a destroços e que por meio desses
ataques de bombardeio e a luta continuada outras vidas se perdessem. O número dessas
pessoas é cerca de 300.00 a 400.000, o maior número das quais pereceu no bombardeio
de Dresden que não pode ser justificado do ponto de vista militar e não podia ser
predito".
"Mesmo assim essa cifra é relativamente pequena quando comparada
aos milhões de alemães que teriam perdido a vida na frente oriental, soldados e
civis, caso houvéssemos capitulado no inverno" (XIII 247-406 <<276-449>>; XVIII
312-372 <<342-406>>).
HANS FRANK
Frank foi acusado de fazer
centenas de declarações anti-semitas em documento de 12.000 páginas, intitulado
seu "diário". O "diário" contém apenas uma página assinada por Frank e centenas
de afirmações de caráter bem humano, que foram ignoradas (XII 115-156 <<129-173>>).
As declarações foram escolhidas pelos russos e compostas em documento curto, apresentado
como prova e Documento 2233-PS, invariavelmente chamado o "diário de Frank".
O "diário" real de 12.000 páginas consiste em resumos (não em anais ipsis litteris
ou anotações estenográficas) e conferências em que cinco ou seis pessoas falavam
com freqüência ao mesmo tempo, em circunstâncias de grande confusão. Não se mostra
claro a quem tais afirmações deviam ser atribuídas (XII 86 <<97-98>>).
Frank
deu seu "diário" aos americanos na crença de que o mesmo o favoreceria. Ele protestara
contra a ilegalidade de Hitler em discursos públicos, correndo grande risco pessoal
e tentara demitir-se 14 vezes (XII 2-114 <<8-128>>; XVIII 129-163 <<144-181>>).
Frank se convencera de que as atrocidades haviam ocorrido, após ler sobre o
Julgamento Soviético de Majdanek, na imprensa estrangeira (XII 35 <<43>>). Auschwitz
não se achava no território controlado por Frank.
Ele encarava sua tarefa
como a de criar um judiciário independente em um Estado Nacional-Socialista, tarefa
essa que julgava impossivel. Em discurso proferido por ele a 19 de novembro de 1941,
Frank afirmou: "A lei não pode ser degradada à posição na qual se torna objeto de
barganha. A lei não pode ser vendida. Ela existe ou não existe. A lei não pode ser
negociada na bolsa de valores. Se não encontra apoio, nesse caso o Estado também
perde seu esteio moral e soçobra nas profundezas da noite e do horror".
As
ilegalidades de Hitler jamais incluíram a aprovação de uma lei ex-post facto e em
3 casos a punição foi aumentada retroativamente (XVII 504 <<547>>).
O alegado
saque de tesouros artísticos por Frank será examinado juntamente com o caso de Rosenberg,
mais adiante.
WILHELM FRICK
Frick foi enforcado por "germanizar"
os habitantes de Posen, Dantzig, Prússia Ocidental, Eupen, Malmedy, a terra dos
sudetos, a terra de Memel e a Austria. Quanto a esta última, tratava-se de terras
que haviam sido do Reich prussiano, separadas da Alemanha pelo tratado de Versalhes.
Malmedy fala francês. As demais áreas, todas elas, falam alemão. A Austria não pôde
subsistir como unidade econômica após 1919 e exigira sua união à Alemanha pelo voto
de seus habitantes. Os vencedores aliados responderam, ameaçando cortar todos os
abastecimentos de alimentos (XVIII 55 <<66>>, XIX 360 <<397>>).
Outro crime
imputado a Frick foi o de ter morto 275.000 deficientes mentais, de acordo com o
"relatório" da "Comissão de Crimes de Guerra" tcheca. Frick, como Göring, foi acusado
por responsabilidades na existência de campos de concentração. Em sua defesa foi
afirmado que a "custódia protetora" existira antes do acesso dos Nacional-Socialistas
ao poder, tanto na Alemanha como na Austria. Nesta, foi chamada de "Anhaltehaft",
tendo sido usada para aprisionar milhares de Nacional- Socialistas (XXI 518-521
<<572-576>>). "Custódia protetora" existe hoje, na Alemanha Ocidental, sendo chamada
de "U-haft". No julgamento final de um dos mais importantes de Dachau, o Julgamento
de Martin Gottfried Weiss e Trinta e Um Outros, Relatórios Legais dos Julgamentos
de Criminosos de Guerra, Volume XI, pg. 15, publicado pelas Nações Unidas, encontramos
o seguinte trecho:
"No caso do Campo de Concentração de Mauthausen... os
fatos foram basicamente os mesmos, embora os números atingidos pelas baixas fossem
muito maiores, como extermínio em massa por meio de uma câmara de gás que funcionou
-"
Será este o reconhecimento de que não existia câmara de gás em Dachau?
De acordo com os Relatórios Legais de Julgamentos de Criminosos de Guerra,
julgamento nenhum em Dachau "provou" a existência de uma câmara de gás naquele local.
Em Nuremberg uma "cópia autenticada" do Julgamento de Gottfried Martin Weiss
e Trinta e Nove Outros, foi apresentada como prova com aquela frase apagada como
Documento 3590-PS (V 199 <<228>>) juntamente com três outros documentos alegando
o extermínio em massa em Dachau (Documento 3249-PS, V 172-173 <<198>>, XXXII 60;
Documento 2430-PS, XXX 470; e 159-L, XXXVII 621).
Frick recebeu do depoente
a acusação pelos "gaseamentos em massa em Dachau" em sua declaração juramentada,
Documento 3249-PS (escrita pelo tenente Daniel Margolies, também envolvido na falsificação
de três discursos de Hitler, XIV 65 <<77>> e assinados pelo Dr. Franz Blaha) e de
ter visitado Dachau. Frick negou isso e exigiu falar para ser confrontado com Blaha
e depor em sua própria defesa. Isso lhe foi negado e Frick aparentemente desistiu.
Jamais depôs. O resumo de sua defesa aparece em XVIII 164-189 <<182-211>>.
O depoente, Dr. Franz Blaha, comunista, tinha sido presidente da Associação
Internacional de Dachau em 1961, afirmando ainda ter testemunhado gaseamentos em
massa e outros artefatos que tinham sido feitos de pele humana.
O julgamento
de Martin Gottfried Weiss se encontra em seis carretéis de microfilme (MII 74, Arquivos
Nacionais). A documentação das câmaras de gás antes do julgamento (relatório, diagramas,
bicos de chuveiro, carretel 1) jamais foi apresentada como prova e não está presente
nas apresentações do julgamento (carretel 4). Os anais (carretéis 2 e 3) não mencionam
qualquer câmara de gás em Dachau, a não ser por algumas frases no depoimento do
Dr. Blaha (Vol 1, pp. 166-169. A pele humana provinha de toupeiras (vol 4, pp. 450,
462, 464).
HANS FRITZSCHE
Fritzsche se convenceu, com base
em uma carta, de que as mortes em massa estavam sendo efetuadas na Rússia, e procurou
verificá-lo. No entanto não conseguiu encontrar prova alguma (XVII 172-175 <<191-195>>).
Fritzsche é defensor importante pois em seu caso foi admitido que os jornais
estrangeiros publicavam muitas notícias falsas sobre a Alemanha (XVII 175-176 <<194-196>>,
ver também XVII 22-24 <<30-33>>). No entanto essas mesmas reportagens e relatórios
pelo rádio constituíram os "fatos de conhecimento comum" para os quais o tribunal
alegou não precisar de provas (Artigo 21 de Regras Para Provas, I 15 <<16>>, II
246 <<279>>).
Foi demonstrado na defesa de Fritzsche que não existe convenção
internacional alguma regulamentando a propaganda ou as histórias sobre atrocidades
falsas ou verdadeiras e que apenas uma única lei nacional de um estado (Suíça) tornava
ilegal insultar chefes de Estado estrangeiros. Que Fritzsche não podia ser culpado
de fato algum tornou-se simplesmente irrelevante, em Nuremberg. Foi considerado
indesejável efetuar um "julgamento" em que todos os acusados fossem condenados.
Nas negociações que antecederam o veredito final foi concordado em que Fritzsche
seria libertado (XVII 135-261 <<152-286>>; XIX 312-352 <<345-388>>).
WALTER
FUNK
Funk era pianista clássico vindo de família artística muito respeitada,
casado por 25 anos à época do julgamento e ex-editor financeiro. Como a maioria
dos acusados Funk se viu imputado de "executar atos imorais", tais como aceitar
presentes de aniversário de Hitler, demonstrar "participação voluntária no Plano
Comum". (Obviamente, tais atos não são ilegais).
Afirmou Funk que os ingleses
e os poloneses haviam conspirado para levar a Alemanha à guerra, na crença de que
os generais alemães derrubariam Hitler (XIII 111-112 <<125-126>>).
Foi também
acusado de conspirar com a SS a fim de assassinar os internos em campos de concentração
para financiar o esforço de guerra, extraindo-lhes os dentes. Os dentes com ouro
eram guardados em cofre no Reichsbank, juntamente com aparelhos de barbear, canetas,
despertadores grandes e demais quinquilharia inútil. Foi esquecido o testemunho
de Rudolf Höss, de que os dentes eram derretidos em Auschwitz (XI 417 <<460>>).
Funk declarou que as espécies e montantes de saque eram "absurdos" e fez ver
que a SS agia como polícia alfandegária e fazia valer os regulamentos de controle
de câmbio, incluindo a propriedade dos montantes de ouro, prata e moedas ou papel-moeda
estrangeiro. Era muito natural que os SS confiscassem grandes quantidades de objetos
valiosos e que eles, como órgão do governo, tivessem contas financeiras e as mesmas
contivessem objetos de valor. Os alemães mantinham seus objetos de valor também
nos mesmos cofres, aos quais o Reichsbank não tinha acesso, já que se tratava de
contas de depósitos privados.
Com o aumento das incursões de bombardeio aéreo
pelos Aliados, uma quantidade cada vez maior de objetos valiosos era depositada
nos cofres por cidadãos alemães comuns. Por fim, após uma incursão especialmente
destruidora sobre o banco, esses objetos foram retirados para uma mina de potássio
em Thüringen. Os americanos encontraram ali esses objetos e falsificaram o filme
feito sobre os mesmos.
Funk e seu advogado demonstraram a falsidade do filme
usando uma testemunha de oposição, em testemunho dos mais astutos e no interrogatório
duplo durante todo o tempo do julgamento (XIII 169 <<189-190>>, 203-204 <<227-228>>,
562-576 <<619-636>>; XXI 233-245 <<262-275>>).
Pouca vida teve, também, o
testemunho ridículo de Oswald Pohl, Documento 4045-PS, no qual Funk era acusado
de debater o destino a ser dado aos dentes de ouro dos judeus mortos a fim de ajudar
na guerra, isso em jantar ao qual compareceram dezenas de pessoas, entre elas garçons
(XVIII 220-263 <<245-291>>). Tal depoimento está em alemão e tem por testemunha
Robert Kempner. Pohl foi mais tarde condenado por "vaporizar pessoas até que morressem"
em Treblinka e fazer capachos com os cabelos das vítimas (NMT IV 1119-1152) (Quarto
Tribunal Militar Nacional, Nuremberg).
Como outros acusados, Funk acreditava
que os crimes houvessem ocorrido mas sustentou que nada sabia sobre eles. Sua crença
de que tais crimes tivessem ocorrido não prova, em si própria, que tivesse base
na realidade.
KURT GERSTEIN
Kurt Gerstein é muitas vezes citado
como "testemunha" de um Holocausto; no entanto isso não é correto. Como "testemunha"
geralmente se entende a pessoa que viu alguma coisa e que se apresenta para depor
com base em seu conhecimento pessoal; Gerstein não fez isso. Foi declarante ou depoente
sem juramento, o que significa que é simplesmente um nome surgido em "declaração"
datilografada em francês, que ele pode ou não ter escrito (Documento 1553-PS, rejeitado
em Nuremberg (IMT VI 333-334 <<371-372>>, 362-363 <<398-399>>).
Uma das histórias
circulando sobre Gerstein é que ele fez essa declaração na prisão Cherche-Midi,
e suicidou-se, e em seguida seu corpo desapareceu.
Mostra-se muito mais provável
que a declaração tenha sido escrita em francês por interrogador-"intérprete" judeu
alemão e que partes das incoerências (como a do inverno ocorrer em agosto, ou estar
em automóvel, numa de suas frases e num trem na seguinte) resultasse de transcrição
imperfeita das anotações do interrogatório e formulário de declarações. Nos julgamentos
de crimes de guerra menores e nos julgamentos de crimes de guerra japoneses as "declarações"
não juramentadas desse tipo são muito comuns, com base na teoria de que possuem
"valor probante", porém menos "peso" do que as declarações juramentadas. Igualmente
possível é que Gerstein também tenha morrido de ferimentos recebidos durante o "interrogatório";
ou talvez ele se enforcasse com a fita da máquina de escrever.
Esse documento
foi mais tarde citado repetidamente no Julgamento de Pohl, onde ficou "provado"
que Treblinka tinha dez "câmaras de gás" (1553-PS) e 10 "câmaras de vapor" (3311-PS)
no mesmo campo, ao mesmo tempo.
G. M. GILBERT
Um dos relatos
mais famosos sobre o comportamento e psicologia dos acusados no Julgamento de Nuremberg
é aquele feito pelo psicólogo nascido na Alemanha, G. M. Gilbert, em seu livro
Diário de Nuremberg. Grande parte desse material consiste em conversas que
os acusados e outras pessoas, como Rudolf Höss, alegadamente mantiveram com Gilbert
ou um com outro (!) e que Gilbert alegadamente anotou mais tarde, com base naquilo
de que se lembrava, em sua memória.
Uma comparação de textos com os anais
do Julgamento de Nuremberg demonstrará que os acusados não falavam no estilo atribuído
a eles por Gilbert. Este não fazia anotações, nenhuma testemunha se achava presente.
As pessoas que crêem que os Documentos 1014-PS, 798-PS e L-3 sejam "discursos
de Hitler", pelo menos em comparação com o Documento Ra-27, podem continuar acreditando
que o livro de Gilbert contenha "declarações dos acusados no Julgamento de Nuremberg".
Isto não exclui, é evidente, que possam ter sido feitas declarações semelhantes
àquelas alegadamente "relembradas" por Gilbert. Este acreditava que os acusados
haviam gaseado milhões de judeus. Se não sentiam culpa por seus atos, tal provava
que eram "esquizóides"
Torna-se óbvio que tal crença por parte de Gilbert
teria influenciado sua percepção e memória em certa medida, ainda que estivesse
dizendo a verdade como se lembrava dela. Se mentiu, não foi o único "americano"
em Nuremberg que o fez. Telford Taylor, por exemplo, foi incapaz de repetir com
correção a mais simples declaração (ver XX 626 <<681-682>>), as declarações do general
Manstein, comparadas à "citação" feita por Taylor quanto a esse general, XXII 276
<<315>>).
A desonestidade de Gilbert fica melhor comprovada no lançamento
feito para 14 de dezembro de 1945: o major Walsh continuou a ler as provas documentais
do extermínio dos judeus em Treblinka e Auschwitz. Um documento polonês dizia: "Todas
as vítimas tinham de despir-se e se descalçar, sendo esse material colhido depois,
com que todas as vítimas, mulheres e crianças em primeiro lugar, eram levadas para
as câmaras de morte... as crianças menores eram simplesmente jogadas lá dentro"
(p. 69, primeira edição).
A "prova documental" é, naturalmente, o "Relatório
de Crimes de Guerra" comunista e as "câmaras da morte", naturalmente, são "câmaras
de vapor" (III 567-568 <<632-633>>).
HERMANN GÖRING
Göring
foi acusado de criar o sistema de campo de concentração e planejar "guerra agressiva"
contra a Polônia. Sua defesa foi a de que a Alemanha era Estado soberano, reconhecido
por todos os governos do mundo (XXI 580-581 <<638-639>>); que Hitler fora legalmente
eleito; que todas as nações têm o direito de legislar e organizar seus negócios
como desejarem; que o general von Schleicher tentara dirigir ilegal e inconstitucionalmente,
sem o apoio dos Nacional-Socialistas; que a Alemanha estava à beira da guerra civil
em 1933; que os campos de concentração foram inventados pelos ingleses durante a
guerra dos boêres e que o internamento de estrangeiros e adversários políticos fora
praticado tanto pela Grã-Bretanha como pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra
Mundial.
A ordem de criar os campos era inquestionavelmente legal sob cláusula
de emergência na Constituição de Weimar e assinada por Hindenburg (Decreto do Presidente
do Reich de 28 de fevereiro de 1933), sob a autoridade do Artigo 48, parágrafo 2,
da Constituição de Weimar (XVII 535 <<581>>, XIX 357 <<394>>).
De acordo
com o documento da acusação, o Documento R-129 (III 506 <<565-566>>), havia 21.400
internos em todos os campos de concentração alemães, somados, em 1939. E que 300.000
pessoas se achavam confinadas em prisões comuns (XVII 535-536 <<581-582>>, XX 159
<<178>>).
Um ano após a guerra 300.000 alemães foram mantidos em campos de
concentração Aliados sob cláusulas de "prisão automática" em acordos Aliados (tais
como o Ponto B-5 da Declaração Conjunta de Potsdam) (XVIII 52 <<62>>).
A
maioria dos prisioneiros nos campos de concentração era de comunistas e criminosos
comuns (XVII 535-536 <<581-582>>, XXI 516-521 <<570-576>>, 607-614 <<677-685>>).
Durante a guerra, devido ao bloqueio Aliado, o sistema de campos foi expandido
a fim de utilizar a mão de obra dos estrangeiros inimigos, criminosos, testemunhas
de Jeová e comunistas. Foi acentuado que os Estados Unidos haviam aprisionado 11.000
Testemunhas de Jeová (XI 513 <<563>>).
A Grã-Bretanha lutou em ambas as guerras
mundiais desafiando a lei internacional e reduzindo a Alemanha e qualquer território
ocupado à fome declarada por meio do bloqueio (XIII 445-450 <<492-497>>; XVIII 334-335
<<365-367>>). Isso tornara necessário fazer requisições e recrutar mão de obra nos
territórios ocupados, o que é legal sob o Artigo 52 da Convenção de Haia. Tal providência
fizera as pessoas sentir-se bem em trabalhar na Alemanha e mandar salários para
suas famílias (cerca de dois e três bilhões de Reichmarks durante a guerra).
Os "escravos" pagavam impostos alemães sobre seus salários e eram disciplinados
por meio de multas que não podiam ultrapassar o salário de uma semana (V 509 <<571>>).
Por indisciplina declarada podiam ser mandados a campo de trabalho (não campo de
concentração) por período que não ultrapassasse 56 dias (XXI 521 <<575-576>>). Era
rigorosamente proibido bater-lhes ou maltratá-los.
Os prisioneiros de guerra
podiam apresentar-se voluntariamente para ser soltos dos campos de prisioneiros
de guerra e trabalhar na indústria, caso em que eram tratados como quaisquer outros
operários industriais (XVIII 496-498 <<542-544>>) mas perdiam a proteção dada pela
Convenção de Prisioneiros de Guerra de Genebra. Não podiam ser obrigados a fazê-lo.
O regime de Vichy na França obteve a soltura e imediato regresso ao lar de um
prisioneiro de guerra para cada três trabalhadores mandados à Alemanha sob contrato,
por período de seis meses (XVIII 497 <<543>>). Não era possível violar a Convenção
de Prisioneiros de Guerra de Genebra forçando prisioneiros franceses, belgas ou
holandeses a participar em atividades contra seus próprios países, porque esses
países não mais estavam lutando (XVIII 472-473 <<516>>.
Quanto ao ataque
à Polônia, a crise polonesa existira por todo um ano antes do Pacto Molotov-Ribbentrop
e do ataque alemão e soviético. Por todo esse tempo os poloneses jamais pediram
a formação de Tribunal de Arbitragem internacional e imparcial; jamais apelaram
para a Liga das Nações; isso porque não desejavam uma solução justa; contentavam-se
em continuar a violar seus acordos internacionais, expulsando cidadãos poloneses
de descendência alemã, bem como muitas centenas de milhares de judeus (XVI 275 <<304>>).
O influxo de judeus poloneses à Alemanha foi a causa imediata principal do anti-semitismo
alemão, de acordo com muitos acusados e testemunhas da defesa (XXI 134-135 <<155>>;
XXII 148 <<169>>). Os judeus poloneses se envolveram em muitos escândalos financeiros
e planos de estelionato, como demonstra o caso Barnat-Kutitsky (XXI 569 <<627>>).
Quanto à conspiração para fazer a guerra desafiando as leis da guerra, naturalmente
foram os ingleses que o fizeram, com bombardeios aéreos em massa. Os soldados alemães
iam à luta com instruções escritas detalhadas no sentido de que a propriedade devia
ser respeitada, o prisioneiro tratado de modo humano, as mulheres respeitadas e
assim por diante (IX 57-58 <<68-69>>, 86 <<100-101>>, XVII 516 <<560>>).
Julgamentos freqüentes, resultando em penas de morte contra alemães, foram levados
a efeito pelos alemães contra os membros de suas próprias forças armadas por estupro
ou saque, mesmo se o valor da propriedade prejudicada fosse pequeno (XVIII 368 <<401-402>>,
XXI 390 <<431>>, XXII 78 <<92>>).
A requisição de propriedades era legal,
sob a Convenção de Haia. A União Soviética não era signatária dessa convenção. De
qualquer modo, nos países comunistas não existia propriedade privada. Göring declarou
ter estado na Rússia e que o povo por lá nada tinha para ser roubado (IX 349-351
<<390-393>>).
Ademais, os Aliados estavam praticando tudo de que acusavam
os alemães terem feito (XXI 526 <<581>>; XXII 366-367 <<418-420>>).
Göring
demoliu a acusação de "experiências médicas em câmara de pressão", dizendo que todos
os aviadores tinham de passar por provas de suas reações físicas a grandes alturas;
nada de sinistro havia quanto a uma chamada "câmara de pressão" (XXI 304-310 <<337-344>>).
Os americanos levavam a efeito experiências médicas que resultavam em mortes, enquanto
o Julgamento de Nuremberg ainda transcorria (XIX 90-92 <<102-104>>; ver também XXI
356, 370 <<393, 409>>).
Foi irônico ter-se alegado que a "guerra defensiva"
incluía o ataque preventivo (XXII 448 <<508>>) ou para proteger o cidadão de país
estrangeiro contra seu próprio governo (XIX 472 <<527>>; XXII 37 <<49>>), a não
ser quando os alemães o fizeram (X 456 <<513>>). Os protestos de que os alemães
sabiam exatamente disso foram ignorados.
Os soviéticos tinham 10.000 tanques
e 150 divisões situados ao longo da fronteira oriental e haviam aumentado o número
de aeroportos em sua parte da região de 20 para 100. Mapas detalhados foram encontrados
mais tarde, mostrando que não teriam sido necessários para fins defensivos. Acreditava-se
que esperar o ataque aos campos petrolíferos da România ou campos de carvão da Silésia
teria sido suicídio (XIX 13-16 <<20-23>>, XX 578 <<630-631>>; XXII 71 <<85>>).
Parece pouco provável que nações com vastos impérios coloniais (Grã-Bretanha,
França) ou proclamação de direitos sobre hemisférios inteiros (Estados Unidos, como
no caso do continente americano, sul, norte e centro) pudessem concordar com a definição
sobre "guerra agressiva". Na verdade foi reconhecido no julgamento em Nuremberg
que "defesa", "agressão" e "conspiração" jamais haviam sido definidos (XXII 464,
467 <<527, 531>>). Sem dúvida a "guerra defensiva" é o bellum justum medieval em
roupagem de jargão liberal (IX 236-691 <<268-782>>; XVII 516-550 <<560-597>>; XXI
302-317 <<335-351>>).
RUDOLF HESS
De acordo com o relatório
de Robert H. Jackson (citado pelo Juiz Bert A. Röling do tribunal de Tóquio, escrevendo
em Tratado de Lei Criminal Internacional, vol. 1, pp. 590-608, editado por
M. Cherif Bassiouni e Ved F. Nanda, Chas Thomas Publisher), os ingleses, franceses
e soviéticos em Nuremberg não queriam acusar os alemães de "guerra agressiva", em
absoluto, por motivos óbvios. Tal acusação foi inventada pelos americanos com o
objetivo único, expresso e reconhecido de justificar as violações perpetradas pelos
americanos contra a lei internacional.
Tais violações da lei internacional
incluiriam o Programa Lend-Lease (Empréstimo e Arrendamento), fazer comboios
e consertar os navios de guerra ingleses por dois anos antes de Pearl Harbor; permitir
que os navios ingleses se declarassem como americanos, enquanto os Estados Unidos
se diziam oficialmente neutros; a declaração ilegal do limite de 300 milhas de águas
territoriais; a ocupação da Islândia; dar informações sobre os movimentos de submarinos
alemães e italianos; bombardeassem e colidissem propositalmente com submarinos alemães
e italianos já em julho de 1941, e outros atos obviamente próprios de "guerra agressiva".
Desse modo Hess foi mantido preso por 47 anos não apenas por atos que não eram
ilegais (buscar dar um fim à guerra, salvar milhões de vidas e impedir a destruição
da Europa e do império britânico) mas por "crimes" que foram inventados a fim de
encobrir os crimes de seus acusadores.
Não se alegou em Nuremberg que a Alemanha
cometera "agressão" contra a Grã-Bretanha ou França; a questão de saber se a Grã-Bretanha
e França haviam, portanto, cometido "agressão" contra a Alemanha, ficou sem resposta
(IX 473 <<525>>; XVII 580 <<629>>).
Hess foi acusado de haver tramado com
Hitler para tirar a Grã-Bretanha da guerra de modo que Hitler pudesse atacar a Rússia.
Sua defesa foi a de que seus atos tinham sido ditados pela sinceridade; que ele
nada sabia sobre qualquer ataque à Rússia.
O resumo da defesa de Hess aparece
em XIX 353-396 <<390-437>>. De sua declaração final (e única) (XXII 368-373 <<420-425>>)
Hess parece ter sido um homem que se mostrava totalmente louco neste momento e brilhantemente
lúcido, lógico, momentos depois. E possível que tal estado tenha sido adquirido
na Grã-Bretanha.